Cabo submarino de fibra ótica ligando o Brasil à Europa foi inaugurado no início de junho

cabo-submarino-brasil-europa

Tecnologia

Com 6 mil quilômetros de comprimento e custo de 150 milhões de euros, o mais novo cabo submarino de fibra ótica posto em funcionamento foi inaugurado no começo de junho. O EllaLink – como foi batizado, conecta Fortaleza, no Ceará, a Sines, em Portugal — com emersões na Guiana Francesa, Ilha da Madeira, Ilhas Canárias e Cabo Verde —,e, assim que estiver em funcionamento pleno, deve reduzir em 50% o tempo de latência entre os continentes, que é como se chama o tempo de resposta na troca de dados.

Além desse cabo, há apenas um outro ligando diretamente o Brasil à Europa: o Atlantis 2, em operação desde o ano 2000, que tem uma capacidade limitada a 20 gigabytes por segundo e é utilizado basicamente para telefonia. O intercâmbio de dados entre Brasil e Europa tinha, até então, de “fazer uma baldeação” nos Estados Unidos.

Pesquisadores explicam que, com uma capacidade máxima bem maior, que pode se aproximar de 100 terabytes por segundo, esse novo cabo tornará viável, de fato, a telefonia 5G no Brasil e deixará um cenário mais preparado para a futura tecnologia 6G, esperada para algum momento desta década.

 Vantagens do novo cabo 

Outro benefício deve ser uma estabilidade maior nos serviços de armazenamento em nuvem, uma necessidade que já era premente e se tornou ainda mais essencial com o aumento significativo do home office (pessoas que realizam seus trabalhos de casa).  Para o usuário, até a prática de jogos online pode ficar mais instantânea, ou seja, com respostas mais imediatas. O custo da operação também deve se tornar menor.  Se assim quiserem, as companhias de telefonia e internet podem repassar melhores tarifas para o consumidor.

“A principal mudança está no balanceamento de tráfego”, contextualiza o cientista da computação Daniel Couto Gatti, diretor da Faculdade de Ciências Exatas e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Hoje, muitos dados têm de passar por conexões nos Estados Unidos para chegar à Europa. Com o cabo, temos acesso direto. Isso também deve desafogar o tráfego com os Estados Unidos. E vai permitir serviços diretos na Europa, com qualidade e velocidade.”

De acordo com o engenheiro em telecomunicações José Marcos Camara Brito, professor no Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), o EllaLink deve “potencializar a cooperação em áreas estratégicas” entre os dois continentes. Serviços como telemedicina e monitoramento de dados — como os da atmosfera, do clima, dos mares e do meio ambiente em geral — também serão melhorados. Como ele enfatiza, tudo o que “envolve computação de alto desempenho” acaba se beneficiando de uma comunicação com menos latência.

Mas contenha sua empolgação, nobre usuário de redes sociais: você não vai sentir nenhuma diferença no seu WhatsApp de toda hora, nem mesmo na navegabilidade de seu celular. Para as pessoas, é uma melhora muito pequena, imperceptível.  É preciso pensar no conjunto. Trocando em miúdos: é como se uma nova rota facilitasse a chegada de produtos para os atacadistas; no varejo, no consumidor final, o acesso vai ser semelhante, embora esses produtos tenham vindo por uma rota mais ágil e eficiente.

É melhor usar cabos ou satélites?

Comparados com os satélites, os cabos submarinos apresentam duas vantagens: custos reduzidos e maior velocidade de transmissão de dados. “Quanto custa colocar um satélite no espaço? E fazer manutenção?”, questiona Gatti. “Mas o real é que a fibra ótica [dos cabos] ainda é o meio com maior capacidade de transmissão. Numa transmissão via satélite, o tráfego é muito inferior e tem maior latência. O satélite tem a vantagem de permitir o acesso em áreas distantes e de difícil acesso.”

Corrida pelo cabo mais longo do mundo 

Atualmente, o SEA-ME-WE3, construído entre 1997 e 2000, é o mais longo cabo submarino do mundo. Ele mede 39 mil quilômetros e conecta 39 pontos terrestres em países da Europa, Oriente Médio e Sudeste Asiático.

Mas a primazia do SEA-ME-WE3 pode estar com os dias contados. Neste mês, o Google anunciou um projeto de construção de um novo cabo, prometendo que será o maior do planeta. Batizado de Firmina, ele deve ligar os Estados Unidos ao sul do continente americano, com emersões no Brasil, na Argentina e no Uruguai.

Ele deve servir para trazer maior capacidade de transferências de dados entre datacentes e geradores de conteúdo. A expectativa é que impacte principalmente a capacidade de transmissão de vídeos por streaming. Além, é claro, de servir de backup para outros cabos. Ou seja: se houver acidente e rompimento de um cabo, o risco de queda [da comunicação] acaba sendo menor.”